Lista de personagens
UM RAPAZ
GEOVANELA, vendedora da banca de eletrônicos piratas e outros artigos
SEU RORIZ, vendedor da banca de bananas
1ª IRMÃ, entregadora de panfletos da igreja
2ª IRMÃ, acompanha entregadora de panfletos
BASTOS, policial ostensivo
SOUSA, policial ostensivo, companheiro de Bastos
GEDEON, poeta cego andarilho da cidade
CLIENTES DOS VENDEDORES, PEDESTRES E OUTROS CURIOSOS
A cena: calçada em frente à faixa de pedestres da Avenida Marechal Castelo Branco; Praça da Bíblia
ATO 1
GEOVANELA
(Cliente se aproxima da banca de Geovanela)
CLIENTE
Moça, bom dia, esse controle remoto aqui, olha to com ele aqui na mão, desse modelo, você tem algum?
GEOVANELA
Desse não. Quer dizer, pra fazer o que tudo esse aí faz, num tenho não. Agora esse menor, ao menos liga e desliga.
CLIENTE
Ah certo, eu levo. Quanto é? Tem a pilha também? Escuta, esse rapaz aí? Parado? Vocês já repararam? É tipo aquele povo que se pinta de cinza, fingindo de estátua, pedindo dinheiro?
GEOVANELA
Controle e pilha sai tudo por 15. Abre direito a sacolinha, se não funcionar, o senhor traz de volta. Agora, o rapaz? Pode ser estátua, mas nem sei se quer dinheiro. A gente notou sim. Como não está fazendo nada, nada atrapalha.
CLIENTE
Tá bom. Vou levar. Toma aqui, já está trocado. Vou fazer um teste lá na TV daqui a pouco. Vou aproveitar e fazer um teste nesse rapaz também. (Vira-se na direção do rapaz e para diante dele). Ô sujeito?! Tá bom? Qual é a troça? É dinheiro? Tá bem? Precisa de algo? Moedinha? Água? Aqui dois reais! (Rapaz continua sem reação) Hummm, dois reais? Cadê o bolso? Tem bolso? Num tem? (Olha de cima em baixo, se agacha, levanta um pouco o pé do rapaz e coloca os dois reais debaixo da chinela) Botei ali debaixo do seu pé pro vento não carregar. Daqui a pouco o sol esquenta. Você tá escutando, cabra? (Sem esboçar nenhuma reação, o cliente decide ir embora e se afasta dizendo) Ouxi é cada doido nessa porra dessa cidade, viu?
GEOVANELA
Viu, Seu Roriz? Esse senhor que saiu daqui? Botou dois reais debaixo do pé ali do rapaz...
SEU RORIZ
Devia ter comprado banana comigo que ganhava mais. E ainda dava uma de presente pro estatueta aí (risos moderados).
GEOVANELA
Nossa, Seu Roriz!
(Uma sequência de três pedestres: dois amigos e um desconhecido)
PEDESTRE 1
(Conversando com outro pedestre, não nota e acaba esbarrando no ombro do rapaz e pede desculpa)
Desculpa, moço
PEDESTRE 2
Não vê que é surdo? Coitado!
PEDESTRE 3
(Escuta a conversa dos outros dois)
Tá pedindo dinheiro se fingindo de estátua. Olha ali, tem até dois reais debaixo do pé dele.
PEDESTRE 1
Aé! Olha, esse povo pede dinheiro pra beber. Daqui a pouco você encontra ele ali no Mercadão mamando na teta da égua de cachaça...
PEDESTRE 2
(Tira uma cédula de dois reais do bolso. Vai até ao rapaz, se agacha, e coloca junto ao outro dinheiro)
Toma aqui, mudinho. Minha contribuição. Vai beber não ein seu fidiquenga.
PEDESTRE 1
(Rindo)
Ué, você ajuda e ainda xinga o coitado?
PEDESTRE 2
Só testando mesmo pra ver se ele surdo. Acho que é.
(O sinal fecha para o carro e os três atravessam)
SEU RORIZ
Olha lá, Geo, botaram mais dois reais. Daqui a pouco vou abandonar a venda de banana e vou ficar parado me fingindo de defunto que morreu em pé (risos escandalosos).
GEOVANELA
Ave Maria, Seu Roriz! Será se ele já notou? Trombaram nele, nem se mexeu, tá mais é pra árvore que pra defunto ou estátua. Levantaram o pé dele duas vezes e ele aceitou. Isso tá cheirando a malandragem...
SEU RORIZ
Malandro é ele que rouba sem pedir. Ladrãozinho. Se faz de surdo pra ouvir...será se ele está ouvindo? (Seu Roriz se levanta, vai até ao rapaz, para diante dele) Ouviu? Ouviu alguma coisa? Eia! (Se aproxima de Geovanela) Parece que tá com os ouvidos quebrados mesmo. E os olhos dele num estão vermelho não. Dizem que aquele cigarrinho deixa o olhos vermelhos, por isso chamam de cigarrinho do capeta, porque o capeta é vermelho, eu já vi num filme. Esse aí, sei lá viu...
GEOVANELA
Pois, estranho demais. Será se a gente chama a polícia? Eu fico olhando a sua banca, ali na praça deve ter algum policial...
SEU RORIZ
Vamos esperar mais um pouco. A calçada começou a ferver. Ver se ele anda um pouco. Qualquer coisa eu vou lá. Mas vou falar o que pro policial? Que tem alguém que morreu de pé e esqueceram de enterrar? (risos).
GEOVANELA
Credo, Seu Roriz!
SEU RORIZ
Alá quem tá vindo ali. As duas irmãs da igreja evangélica vindo distribuir panfleto no sinal. Parece que elas até já notaram o rapaz. Espia, Geo.
(As duas irmãs se aproximam do rapaz)
1ª IRMÃ
UM RAPAZ
GEOVANELA, vendedora da banca de eletrônicos piratas e outros artigos
SEU RORIZ, vendedor da banca de bananas
1ª IRMÃ, entregadora de panfletos da igreja
2ª IRMÃ, acompanha entregadora de panfletos
BASTOS, policial ostensivo
SOUSA, policial ostensivo, companheiro de Bastos
GEDEON, poeta cego andarilho da cidade
CLIENTES DOS VENDEDORES, PEDESTRES E OUTROS CURIOSOS
A cena: calçada em frente à faixa de pedestres da Avenida Marechal Castelo Branco; Praça da Bíblia
ATO 1
CENA 1
Calçada
(Em meio ao movimento de pedestres na manhã de sábado, um jovem em pé, parado. Sem reação. Os dois vendedores das banquinhas ao lado conversam)
GEOVANELA
Notou esse moço, Seu Roriz? Pensei que ele estivesse esperando alguém? Estranho. Mas agora que fui me tocar que quando cheguei aqui, desde às seis da manhã, ele já estava aí parado. Nem se mexe.
SEU RORIZ
Pouco nota quem muito trabalha, minha filha. Por isso você não viu. Sim, ele está aí parado há um tempo. Cheguei depois de você. Será que não foi a bateria dele que acabou? Consiga uma de suas pilhas e enfia lá no furico dele (risos escandalosos).
GEOVANELA
Credo, Seu Roriz. Se a coisa for séria? Será que num tá surtado? Num é droga? A juventude dessa cidade, ouvi na rádio, está no vício. Vício de cerveja, de açaí, de crepe, de maconha, de...de o que mais? Até de exercício. O senhor ficou sabendo do rapaz que desmaiou na academia? Mais de cinco horas levantando peso, saía correndo pela avenida, lá perto do Sobrasa, nesse sol de rachar, carregando uma bola preta de borracha nas costas...
SEU RORIZ
Ah que desses daí eu sei. Um quase me derrubou esses dias. Parece um bando de jumento afobado correndo na calçada. Foi quase um atropelamento.
GEOVANELA
Mas esse não é bombado. Deve ser droga mesmo. De qualquer forma, me ajuda a ficar de olho. Ninguém sabe né? Mataram um ontem aqui na praça, pleno feriado.
SEU RORIZ
Bandido faz o próprio calendário, minha filha. Espia que eu espio também.
(Cliente se aproxima da banca de Geovanela)
CLIENTE
Moça, bom dia, esse controle remoto aqui, olha to com ele aqui na mão, desse modelo, você tem algum?
GEOVANELA
Desse não. Quer dizer, pra fazer o que tudo esse aí faz, num tenho não. Agora esse menor, ao menos liga e desliga.
CLIENTE
Ah certo, eu levo. Quanto é? Tem a pilha também? Escuta, esse rapaz aí? Parado? Vocês já repararam? É tipo aquele povo que se pinta de cinza, fingindo de estátua, pedindo dinheiro?
GEOVANELA
Controle e pilha sai tudo por 15. Abre direito a sacolinha, se não funcionar, o senhor traz de volta. Agora, o rapaz? Pode ser estátua, mas nem sei se quer dinheiro. A gente notou sim. Como não está fazendo nada, nada atrapalha.
CLIENTE
Tá bom. Vou levar. Toma aqui, já está trocado. Vou fazer um teste lá na TV daqui a pouco. Vou aproveitar e fazer um teste nesse rapaz também. (Vira-se na direção do rapaz e para diante dele). Ô sujeito?! Tá bom? Qual é a troça? É dinheiro? Tá bem? Precisa de algo? Moedinha? Água? Aqui dois reais! (Rapaz continua sem reação) Hummm, dois reais? Cadê o bolso? Tem bolso? Num tem? (Olha de cima em baixo, se agacha, levanta um pouco o pé do rapaz e coloca os dois reais debaixo da chinela) Botei ali debaixo do seu pé pro vento não carregar. Daqui a pouco o sol esquenta. Você tá escutando, cabra? (Sem esboçar nenhuma reação, o cliente decide ir embora e se afasta dizendo) Ouxi é cada doido nessa porra dessa cidade, viu?
GEOVANELA
Viu, Seu Roriz? Esse senhor que saiu daqui? Botou dois reais debaixo do pé ali do rapaz...
SEU RORIZ
Devia ter comprado banana comigo que ganhava mais. E ainda dava uma de presente pro estatueta aí (risos moderados).
GEOVANELA
Nossa, Seu Roriz!
(Uma sequência de três pedestres: dois amigos e um desconhecido)
PEDESTRE 1
(Conversando com outro pedestre, não nota e acaba esbarrando no ombro do rapaz e pede desculpa)
Desculpa, moço
PEDESTRE 2
Não vê que é surdo? Coitado!
PEDESTRE 3
(Escuta a conversa dos outros dois)
Tá pedindo dinheiro se fingindo de estátua. Olha ali, tem até dois reais debaixo do pé dele.
PEDESTRE 1
Aé! Olha, esse povo pede dinheiro pra beber. Daqui a pouco você encontra ele ali no Mercadão mamando na teta da égua de cachaça...
PEDESTRE 2
(Tira uma cédula de dois reais do bolso. Vai até ao rapaz, se agacha, e coloca junto ao outro dinheiro)
Toma aqui, mudinho. Minha contribuição. Vai beber não ein seu fidiquenga.
PEDESTRE 1
(Rindo)
Ué, você ajuda e ainda xinga o coitado?
PEDESTRE 2
Só testando mesmo pra ver se ele surdo. Acho que é.
(O sinal fecha para o carro e os três atravessam)
SEU RORIZ
Olha lá, Geo, botaram mais dois reais. Daqui a pouco vou abandonar a venda de banana e vou ficar parado me fingindo de defunto que morreu em pé (risos escandalosos).
GEOVANELA
Ave Maria, Seu Roriz! Será se ele já notou? Trombaram nele, nem se mexeu, tá mais é pra árvore que pra defunto ou estátua. Levantaram o pé dele duas vezes e ele aceitou. Isso tá cheirando a malandragem...
SEU RORIZ
Malandro é ele que rouba sem pedir. Ladrãozinho. Se faz de surdo pra ouvir...será se ele está ouvindo? (Seu Roriz se levanta, vai até ao rapaz, para diante dele) Ouviu? Ouviu alguma coisa? Eia! (Se aproxima de Geovanela) Parece que tá com os ouvidos quebrados mesmo. E os olhos dele num estão vermelho não. Dizem que aquele cigarrinho deixa o olhos vermelhos, por isso chamam de cigarrinho do capeta, porque o capeta é vermelho, eu já vi num filme. Esse aí, sei lá viu...
GEOVANELA
Pois, estranho demais. Será se a gente chama a polícia? Eu fico olhando a sua banca, ali na praça deve ter algum policial...
SEU RORIZ
Vamos esperar mais um pouco. A calçada começou a ferver. Ver se ele anda um pouco. Qualquer coisa eu vou lá. Mas vou falar o que pro policial? Que tem alguém que morreu de pé e esqueceram de enterrar? (risos).
GEOVANELA
Credo, Seu Roriz!
SEU RORIZ
Alá quem tá vindo ali. As duas irmãs da igreja evangélica vindo distribuir panfleto no sinal. Parece que elas até já notaram o rapaz. Espia, Geo.
(As duas irmãs se aproximam do rapaz)
1ª IRMÃ
Bom dia, moço! Posso deixar um convite com você? Faremos uma celebração hoje à tarde na nossa igreja. Sábado de aleluia! Você está convidado! (Estica o braço oferecendo o papel; rapaz não se move)
2ª IRMÃ
Hum, será se é surdo? Se bem que deve ser cego também! Os olhos estão abertos, mas nem pisca. Olha, tem dinheiro debaixo do sapato dele!
1ª IRMÃ
Que estranho! Talvez ele esteja brincando com alguém. Moço, tá me ouvindo?
GEOVANELA
(Grita de longe em direção às irmãs de fé)
Esse aí tá pasmado, moça. Mexeu até agora, mais de duas ou três horas assim. Nem mexe com os outros, mas estão mexendo com ele. Só num dá em nada.
2ª IRMÃ
Tá repreendido em nome do Senhor! Deixa o convite aí então com ele, irmã!
1ª IRMÃ
Olha moço, se você mudar de ideia, vou deixar aqui junto com o dinheiro que você ganhou, viu. (Agacha e coloca o convite sob o pé junto com os quatro reais, depois se levanta e fala). SANGUE DE JESUS!
2ª IRMÃ
Eia, falar em sangue, viu essa camisa dele? Até o rosto? Parece sangue isso. Enquanto você estava colocando o dinheiro comecei a reparar, valha-me Deus, viu! Será se tá envolvido em coisa errada?
1ª IRMÃ
Verdade. (Passa a observar com mais calma, e chama a outra irmã até a banca de Geovanela). Moça, por acaso você viu que ele está com algumas coisas no corpo, vermelhas? Será se é tinta? E se for sangue?
GEOVANELA
Gente, até sangue? Isso eu não notei não. Seu Roriz, as moças aqui estão dizendo que o sujeito lá está respingado de sangue.
SEU RORIZ
Vocês tem certeza? Geovanela, olha a banca aqui então. Vou ali procurar a polícia. Vai que é um criminoso enfeitiçado. Bandido também faz feitiçaria. Uma vez me passaram a mão leve na carteira, ali no Mercadão, gatuno. Só feitiço mesmo. Não era possível. (Seu Roriz levanta, vai até o rapaz e observa com mais calma). É, parece sangue mesmo. Vou procurar os policiais.
1ª IRMÃ
O panfleto foi entregue. Quer ficar pra acompanhar o caso?
2ª IRMÃ
Trabalho é trabalho. Deixa esse aí que Jesus cuida dele. Vamos pro outro lado da rua. Se ele estiver com intenção de coisa que num presta?
(As duas irmãs atravessam a avenida)
GEOVANELA
Gente, até sangue? Isso eu não notei não. Seu Roriz, as moças aqui estão dizendo que o sujeito lá está respingado de sangue.
SEU RORIZ
Vocês tem certeza? Geovanela, olha a banca aqui então. Vou ali procurar a polícia. Vai que é um criminoso enfeitiçado. Bandido também faz feitiçaria. Uma vez me passaram a mão leve na carteira, ali no Mercadão, gatuno. Só feitiço mesmo. Não era possível. (Seu Roriz levanta, vai até o rapaz e observa com mais calma). É, parece sangue mesmo. Vou procurar os policiais.
1ª IRMÃ
O panfleto foi entregue. Quer ficar pra acompanhar o caso?
2ª IRMÃ
Trabalho é trabalho. Deixa esse aí que Jesus cuida dele. Vamos pro outro lado da rua. Se ele estiver com intenção de coisa que num presta?
(As duas irmãs atravessam a avenida)
CENA 2
Praça da Bíblia
(Seu Roriz encontra uma dupla de policiais na Praça. Próximo a eles, o cego Gedeon sentado em um banco)
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